PASTORINHOS

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Os Três Pastorinhos

Tinham tudo para uma vida simples, anónima, mas acabaram por entrar para a História, não só da Igreja Católica em Portugal e no mundo, mas também da humanidade, como testemunhas privilegiadas de Aparições num pequeno local chamado Cova da Iria, perto de Fátima, no centro do país.

Como pequenos pastores que eram, ficaram para sempre conhecidos como “os Três Pastorinhos” ou “os Videntes de Fátima” a quem Nossa Senhora do Rosário apareceu por seis vezes em 1917, faz agora 100 anos.

Lúcia, na altura com 10 anos, e os seus primos Francisco, com 9, e Jacinta, com 7, irmãos, foram os escolhidos para receberem a Mensagem em que a “Senhora mais brilhante que o Sol” pedia orações, sacrifícios e reparação das ofensas ao seu Imaculado Coração e a Deus.

A Lúcia foi dado ver, ouvir e falar durante as Aparições, enquanto Jacinta podia ver e ouvir. Francisco podia apenas ver, pelo que a prima e a irmã lhe relatavam depois tudo o que tinham ouvido.

 

Lúcia

Nascida em Aljustrel, como os seus primos, a 28 de março de 1907, batizada dois dias depois, Lúcia recebe a Primeira Comunhão em 30 de maio de 1913, por mediação do Pe. Cruz – de acordo com a documentação conhecida –, impressionado com os seus conhecimentos catequéticos.

Nas suas Memórias, Lúcia relata que em 1915 teve pela primeira vez visões de uma espécie de nuvem, com forma humana, por três ocasiões diferentes, quando estava com outras amigas. É no ano seguinte, 1916, que as três crianças recebem as manifestações do Anjo de Portugal, como se apresentou.

A partir da primeira Aparição de Nossa Senhora, em 13 de maio de 1917, a vida de Lúcia e dos seus primos transformou-se completamente: não só porque acolhem os pedidos da Senhora, recitando diariamente o terço, fazendo sacrifícios, alguns dolorosos, pelos pecadores e comparecendo durante seis meses, ao dia 13, naquele local, mas sobretudo porque passam a ser constantemente interrogados sobre o que viram e acusados de mentirem e de inventarem tudo.

 

Início da vida retirada do mundo

Recolhida no Asilo de Vilar, no Porto, depois da última Aparição (ocorrida a 13 de outubro de 1917), a conselho do bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, Lúcia de Jesus começa uma vida retirada do mundo que a irá levar ao postulantado das Irmãs Doroteias, em Espanha, aos 15 anos de idade, e, mais tarde, à clausura do Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, onde permanecerá desde 17 de maio de 1946 até à sua morte, em 13 de fevereiro de 2005.

Ainda em Vilar escreve, em 5 de janeiro de 1922, o primeiro relato das Aparições e dois anos e meio depois, a 8 de julho de 1924, responde, no Porto, ao interrogatório oficial da Comissão Canónica Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima, nomeada por D. José Alves Correia da Silva.

Na sequência do trabalho da Comissão, o bispo de Leiria publicou, a 13 de outubro de 1930, 13 anos depois das Aparições, uma Carta Pastoral sobre o culto de Nossa Senhora da Fátima, considerando «dignas de crédito as visões das crianças na Cova da Iria, freguesia de Fátima [...], nos dias 13 de maio a outubro de 1917».

 

Divulgadora da Mensagem de Fátima

Escolhida desde o início para ser a grande divulgadora da Mensagem de Fátima e da devoção ao Imaculado Coração de Maria, Lúcia deixou numerosos escritos, de que se salientam as Memórias, divididas em seis partes, escritas a pedido quer do bispo de Leiria quer, mais tarde, do reitor do Santuário, Mons. Luciano Guerra (as duas últimas).

As seis partes das Memórias, redigidas entre dezembro de 1935 e março de 1992, incluem o relato das Aparições, tanto do Anjo de Portugal como da Senhora do Rosário (2.ª e 4.ª), e evocações de Jacinta (1.ª), de Francisco (4.ª), do pai (5.ª) e da mãe (6.ª).

A 3.ª Memória, datada de agosto de 1941, integra as duas primeiras de três partes do conteúdo reservado da Mensagem de Fátima que passou a ser conhecido como o Segredo de Fátima: a visão do Inferno e o pedido de devoção ao Imaculado Coração de Maria e de consagração da Rússia.

 

Terceira parte do Segredo arquivada no Vaticano

A terceira e última parte do Segredo é incluída na 4.ª Memória e refere-se à luta dos «sistemas ateus contra a Igreja e os cristãos e descreve o sofrimento imane das testemunhas da fé do último século do segundo milénio. É uma Via-Sacra sem fim, guiada pelos Papas do século XX», conforme anunciou em Fátima, em 13 de maio de 2000, o cardeal Angelo Sodano, Secretário de Estado do Vaticano.

Os Três Pastorinhos, apesar de inúmeras ameaças, guardaram inviolavelmente este segredo, o qual só mais tarde foi escrito pela Irmã Lúcia, em obediência ao pedido explícito do bispo da diocese de Leiria, sendo posteriormente enviado à Santa Sé, onde ficou arquivado.

Em carta dirigida ao Papa Pio XII, em 2 de dezembro de 1940, Lúcia pede insistentemente que seja atendido o pedido de Nossa Senhora, reafirmado em Aparições posteriores em Espanha, para que fosse proclamada a devoção ao Imaculado Coração de Maria e a consagração do mundo, e em especial da Rússia, ao Coração de Maria.

Consagração que Pio XII acabou por fazer, a 31 de outubro de 1942, em Roma, renovando-a no mesmo local a 8 de dezembro.

Paulo VI (21 de novembro de 1964), João Paulo II (7 de junho de 1981, 8 de Dezembro de 1981, 13 de maio de 1982, 16 de Outubro de 1983, 25 de março de 1984 – em comunhão com todos os bispos do mundo – e 13 de maio de 1991) e Francisco (13 de Outubro de 2013) também renovaram a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria.

 

Encontros pessoais com Papas e um futuro Papa

Lúcia acabou por encontrar-se pessoalmente com quase todos os Papas que cruzaram a sua vida desde as Aparições, exceto com Bento XV e Pio XII.

O primeiro contacto direto com um Sumo Pontífice ocorreu em 1967, quando se deslocou a Fátima para se encontrar com Paulo VI, a pedido do próprio Papa, durante as celebrações do Cinquentenário das Aparições.

A imagem do sucessor de Pedro ao lado da única vidente de Fátima viva correu mundo e constituiu, para muitos, a primeira vez que viam Lúcia.

Com João Paulo I não houve um contacto direto durante o seu curto pontificado, mas a Irmã Lúcia recebera o então cardeal Albino Luciani, futuro Papa, no Carmelo de Coimbra, depois de uma visita do Patriarca de Veneza a Fátima. A conversa foi prolongada, mas não há registo dos assuntos abordados.

Os contactos mais frequentes foram com João Paulo II, depois do atentado em Roma, durante as visitas que o Papa efetuou a Fátima (em 1982, 1991 e 2000).

A última visita assumiu um caráter especial para a Irmã Lúcia, pois ocorreu a propósito da beatificação dos seus primos Francisco e Jacinta, os outros dois pastorinhos de Fátima, e foi a altura escolhida pelo Papa para anunciar a terceira e última parte do Segredo de Fátima, referente, na interpretação do Pontífice, à predição do atentado que sofrera em 1981.

 

Processo de beatificação antecipado

A Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado, nome que adotou quando professou os seus votos perpétuos, em 31 de maio de 1949, morreu a 13 de fevereiro de 2005 e foi sepultada no Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, sendo os seus restos mortais trasladados para a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima a 19 de fevereiro de 2006, ficando ao lado de sua prima Jacinta.

Três anos após a morte de Lúcia, em 3 de fevereiro de 2008, o cardeal José Saraiva Martins, então Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, anuncia, no Carmelo de Coimbra, que o Papa Bento XVI tinha acedido aos pedidos do bispo de Coimbra, D. Albino Cleto, e de numerosos fiéis em todo o mundo, para que fosse dispensado o período canónico de espera de cinco anos para abertura do processo de beatificação da vidente, autorizando a sua antecipação.

A fase diocesana do processo foi aberta por D. Albino Cleto, em 30 de abril de 2008, e a sua conclusão foi anunciada em 13 de janeiro de 2017. A sessão solene de encerramento do processo decorreu a 13 de fevereiro de 2017, nove anos depois do seu início e 12 anos após a morte da vidente.

 Um longo período que se justificou, segundo a Ir.ª Ângela Coelho, vice-postuladora da Causa de Canonização da Irmã Lúcia, pela necessidade de analisar a numerosa documentação sobre a vidente, grande parte da qual existente no Vaticano, e de recolher os testemunhos acerca da sua fama de santidade e das suas virtudes heróicas, culminando num volumoso processo de 15 mil páginas que passa, agora, para a fase romana de análise, sob competência da Congregação para as Causas dos Santos.

 

Beatos Francisco e Jacinta, em breve S. Francisco Marto e Santa Jacinta Marto

Das curtas vidas de Francisco e de Jacinta Marto, «as duas candeias que Deus acendeu para iluminar a humanidade nas suas horas sombrias e inquietas», como João Paulo II lhes chamou, há poucos registos biográficos. A mais importante fonte para o conhecimento sobre eles é constituída pelas Memórias de sua prima.

Nascidos ambos em Aljustrel, com menos de dois anos de intervalo, morrem pouco tempo depois das Aparições, tal como Nossa Senhora lhes tinha anunciado: «a Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu [Lúcia] ficas cá mais algum tempo» (13 de junho de 1917).

Vidas breves, mas suficientes para que a Igreja Católica reconhecesse, pela primeira vez na sua história de 2000 anos, a “heroicidade das virtudes e a maturidade de fé de crianças não-mártires”, por decreto de João Paulo II, de 13 de maio de 1989, que abriu o precedente para o reconhecimento da sua santidade.

 

Francisco Marto

Francisco Marto, cuja iconografia o apresenta de carapuço na cabeça e jaleca curta, com o cajado e o saco do farnel ao pescoço, nasceu em 11 de junho de 1908 e foi batizado em 20 de junho na Igreja Paroquial de Fátima.

Com apenas 8 anos de idade, começou, com a sua irmã Jacinta, a pastorear o rebanho dos seus pais pela zona da Cova da Iria, local onde, juntamente com a prima Lúcia, viriam a testemunhar as Aparições, durante as quais podia apenas ver, sem ouvir ou falar.

Levado pelo desejo íntimo de consolar o coração de Jesus, pois – dizia – queria dar alegria a um Deus que estava triste com os agravos ao Seu coração, Francisco viveu intensamente a oração contemplativa. Para isso, passava horas seguidas em oração em frente ao sacrário, na Igreja Paroquial de Fátima.

Essa vontade de desagravar o coração de Jesus e de se dedicar inteiramente à oração levou-o a desistir de ir à escola, apesar de, nas Aparições, Nossa Senhora de Fátima lhes ter pedido para que aprendessem a ler e a escrever.

A 18 de outubro de 1918, pouco mais de um ano depois da última Aparição, Francisco adoece, vítima da epidemia da gripe pneumónica que assolou o país. Também conhecida por gripe espanhola, a doença chegara a Portugal no meio desse ano e em pouco tempo causou a morte de dezenas de milhares de pessoas.

A 2 de abril do ano seguinte, confessa-se e recebe a comunhão pela última vez «com uma grande lucidez e piedade», como escreve o pároco de Fátima no Livro de Óbitos, ao registar a sua morte, em 4 de abril, acrescentando: «E confirmou que tinha visto uma Senhora na Cova da Iria e Valinho».

Foi sepultado no cemitério de Fátima, de onde os seus restos mortais foram exumados, em 17 de fevereiro de 1952, e trasladados para a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, em 13 de março de 1952, repousando no braço direito do transepto.

 

Jacinta Marto

Tímida, mas serena, Jacinta Marto teve uma vida ainda mais curta do que a do seu irmão Francisco.

Nascida a 11 de março de 1910, também em Aljustrel, não chega a atingir os 10 anos de idade, ao falecer em Lisboa, igualmente vítima da pneumónica, em 20 de fevereiro de 1920, longe da família, “mas consolada com a certeza de ir para o Céu” (Irmã Lúcia).

Nas Aparições, Jacinta via e ouvia, mas não falava. Segundo a prima Lúcia, Jacinta afligia-se com o sofrimento dos pecadores de que se apercebera na visão do Inferno (Aparição de 13 de julho de 1917) e o seu coração encheu-se de compaixão por eles e de devoção ao Imaculado Coração de Maria.

Essa profunda devoção levou-a à oração intensa e a suportar sacrifícios pelos pecadores, relembrou ainda Lúcia nos seus escritos, nos quais recorda que a prima sofria com o afastamento da família, com saudades da mãe, chorando com fome nos períodos em que fazia jejum por compaixão pelos pecadores.

Jacinta disse ter tido várias aparições de Nossa Senhora durante a sua doença, em casa, na Igreja de Fátima, no orfanato onde esteve, em Lisboa, antes de ser internada e, depois, no Hospital de D. Estefânia.

Tal como o irmão, adoece com a pneumónica (gripe espanhola) em outubro de 1918, tendo sido internada pela primeira vez no hospital de Vila Nova de Ourém, de 1 de julho a 31 de agosto de 1919, já depois da morte de Francisco.

No ano seguinte, ano da sua morte, volta a ser internada, desta vez no Hospital de D. Estefânia, em Lisboa, a 2 de fevereiro. Foi operada, mas acabou por falecer em 20 de fevereiro, «com a maior tranquilidade, sem ter comungado», apesar de ter pedido insistentemente que lhe dessem a comunhão, pois, dizia, iria morrer em breve, segundo o relato do médico que a acompanhou, Eurico Lisboa.

O seu corpo foi levado para Vila Nova de Ourém, em cujo cemitério foi sepultado em 24 de fevereiro, no jazigo dos condes de Alvaiázere.

A 30 de abril de 1951, os seus restos mortais são identificados e trasladados para o braço esquerdo do transepto da Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima no dia seguinte, 1 de maio de 1951.

 

Processo de canonização chega ao fim, 65 anos depois

Precisamente um ano depois, a 30 de abril de 1952, o bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, abre os dois processos diocesanos sobre a fama de santidade e as virtudes dos dois irmãos.

Seguindo caminhos paralelos, a fase diocesana do processo de Jacinta é encerrada em 2 de julho de 1979, contendo 77 sessões e 27 testemunhos. O processo de Francisco é encerrado, um mês depois, a 1 de agosto, com 63 sessões e 25 testemunhos.

Dez anos depois, em 13 de maio de 1989, João Paulo II decreta a heroicidade das virtudes de Francisco e de Jacinta e os dois pastorinhos passam a ser considerados veneráveis, o que acontece pela primeira vez na História da Igreja Católica com crianças não-mártires.

A partir daqui os dois processos são unidos num só.

 

Beatificação em Fátima

O passo seguinte no processo de beatificação de Francisco e de Jacinta ocorre dez anos depois, em 28 de junho de 1999, quando o Papa João Paulo II promulga o decreto sobre o milagre da cura de Emília Santos, obtido por intercessão dos dois pastorinhos, abrindo o caminho à beatificação, cuja celebração veio a acontecer, em Fátima, no ano seguinte, em 13 de maio.

A beatificação estava a ser preparada para ter lugar em Roma, mas por vontade do Papa polaco, a celebração foi transferida para Fátima, onde João Paulo II beatifica Francisco e Jacinta Marto, apresentando-os à Igreja e ao mundo como «duas candeias que Deus acendeu para iluminar a humanidade nas suas horas sombrias e inquietas».

O decreto pontifício concede que os veneráveis Francisco e Jacinta sejam considerados beatos, com festa litúrgica a 20 de fevereiro.

A Irmã Lúcia esteve presente na celebração da beatificação dos primos e teve nessa altura o seu último encontro com João Paulo II.

 

Canonização em Fátima, a 13 de maio

Francisco e Jacinta Marto vão ser canonizados no Santuário de Fátima, a 13 de maio, durante a Missa da primeira Peregrinação Internacional Aniversária do Centenário das Aparições, presidida pelo Papa Francisco.

Tornam-se assim nos mais jovens santos não-mártires da história da Igreja Católica.

A decisão sobre o local e data da canonização foi anunciada hoje pelo Papa Francisco na reunião pública do Consistório, de 20 de abril, realizada no Palácio Apostólico do Vaticano.

O Santuário de Fátima volta assim a ser o palco de uma cerimónia no processo de canonização de Francisco e Jacinta, depois de, a 13 de maio de 2000, João Paulo II ter presidido ali à beatificação dos dois videntes.

A canonização fora aprovada a 23 de março, quando o Vaticano anunciou que o Papa Francisco reconhecera o milagre atribuído a Francisco e Jacinta, última etapa do processo, iniciado há 65 anos.

O reconhecimento de um milagre realizado por sua intercessão depois da beatificação é um processo da competência da Congregação para a Causa dos Santos, regulado pela Constituição Apostólica Divinus Perfectionis Magister , promulgada por João Paulo II em 1983.

No processo de Francisco e Jacinta Marto, foi aceite como milagre a cura milagrosa de uma criança no Brasil, num caso de que ainda são escassos os pormenores.

A decisão da comissão de peritos ou científica sobre a aceitação do milagre foi posteriormente analisada por uma comissão de teólogos, que recomendou a aceitação à Congregação para a Causa dos Santos.

O decreto saído da Congregação, declarando santos os dois beatos, foi então submetido à aprovação do Papa Francisco, o que aconteceu a 23 de março deste ano.

A canonização é a confirmação, por parte da Igreja Católica, de que alguém é digno de culto público universal, podendo ser apresentado aos fiéis como intercessor e modelo de santidade.

A festa litúrgica de Francisco e Jacinta, até agora apenas a nível diocesano, ocorre a 20 de fevereiro, dia da morte de Jacinta.

 
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